“O ser humano é muito complicado”

25 09 2008

Foi nos Estados Unidos, em 1790, que o termo primeira-dama (first lady) começou a ser usado, graças às aparições de Martha ao lado do marido e presidente George Washington em compromissos políticos e eventos públicos. Mas o termo pegou mesmo quando a mídia americana se apossou da expressão e começou a se referir à mulher de Rutherford B. Haynes (1877-1881) também por “first lady”. Lucy Haynes chamava a atenção por participar ativamente nos trabalhos sociais, dedicando-se a visitar áreas carentes, asilos e hospitais quase em tempo integral. Já no Brasil, a expressão foi usada pela primeira vez com Mariana da Fonseca, então com 62 anos, esposa do marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente brasileiro.

O Paraná teve, na década de 1980, uma das mais jovens e belas primeiras-damas do país, quando Álvaro Dias foi eleito governador do Estado. Débora Dias tinha, então, 24 anos. Formada em Direito, Debora se considera uma representante da última geração de mulheres nas quais a profissão não era colocada em primeiro lugar como hoje em dia. “Apesar de termos que ter requisitos para casar e cuidar da família dávamos valor em ter-se uma faculdade, uma formação. Acho que tínhamos outra mentalidade”, diz ela.

Mesmo considerando ter assumido a posição e as responsabilidades de primeira-dama muito jovem, Débora avalia que a vida na política lhe ensinou algumas lições. A primeira delas foi nunca generalizar. “A generalização só prejudica aqueles que são bons, aqueles que por ventura são diferentes”. A segunda delas foi acreditar, como uma pessoa otimista, que nada é cem por cento ruim e nada é cem por cento bom. “Sempre vai ter uma coisinha ruim pra ter ensinar como uma lição. É preciso ter os pés no chão”, afirma ela. Débora se refere ao conhecimento que uma primeira-dama deve ter sobre as entidades do terceiro setor. “É preciso conhecer e querer saber sobre as pessoas envolvidas e a quem os recursos estão sendo destinados”.

Débora Dias avalia que ser primeira-dama foi uma oportunidade única em sua vida. “Uma época da vida em que se poderia aliar a força física da juventude e uma ingenuidade típica da época com os idealismos a flor da pele e uma ousadia que só somos capazes de ter na juventude”.

Mesmo com a vida tumultuada de primeira-dama, ela estava no último ano de Direito quando Álvaro concorreu ao governo do Estado. Nascida em 1963, Débora recorda-se da força do movimento estudantil daquela época, “uma geração ávida” e do divisor de águas que foi o ano de 1964.

A ex-primeira dama lembra, ainda, ter ido à praça pública vaiar o último presidente do regime militar, o general João Batista Figueiredo. “Pela pouca idade que eu tinha, pensar na carência do país não era uma ocupação da minha cabeça. Por isso, ser primeira-dama me deu grande oportunidade de pensar mais nos outros do que em mim mesma. Tínhamos aquela coisa de ser contra. Não podíamos, até então, expor nossas opiniões e quando se abriu a possibilidade, então o fazíamos. Não gosto de termo conto de fadas, mas vivia todo esse idealismo próprio da época”.

Nada de glamour

“De repente você é uma pessoa, tinha aqueles que nem sabiam quem você era e da noite para o dia, ao descobrir quem você é, tentam boicotar ações, fazer contestações. O ser humano é muito complicado”, desabafa Débora. Ela tinha consciência de que seria primeira-dama apenas por um período e que depois sua vida voltaria à rotina normal. Por isso, sempre tentou preservar sua vida privada. “A vida pública pode ter mudado, mas a minha vida quanto ao social e ao lazer que pratico, não. É preciso acertar o passo, fazendo a diferença no momento exato onde se quer fazer a diferença”.

Devota de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Débora avalia que o caminho para se chegar a Deus tem muitas estradas. “E o que uma primeira-dama faz para proteger seus filhos de ameaças de seqüestro?”, questiona ela ao mesmo tempo em que responde: “Coloca-se a vida na mão de Deus. A sensação de proteção religiosa durante alguns momentos difíceis como primeira-dama foram reconfortantes para se ter força para seguir em frente”.

Débora considera, na posição de esposa de um político e, principalmente, na situação de primeira-dama, impossível se chegar à alienação do que acontece em seu estado, cidade, ou bairro. Manter um diálogo aberto com o marido durante sua gestão foi essencial para ela. “É natural do ser humano sempre tender a se colocar em primeiro lugar. Na posição de primeira-dama, o bem do Estado vinha até mesmo antes da família. Acordava no meio da madrugada para tentar bolar maneiras e projetos para aquelas famílias que, eu sabia, passavam por necessidades”.

A ex-primeira-dama chama atenção sobre o egoísmo dos políticos em não seguirem projetos de gestões passadas. “Vários projetos que realizamos infelizmente não tiveram continuidade por egoísmo político, por achar que cada um que assume o governo deve criar novas metas e novas iniciativas. Isso tudo atrasa a situação da população que depende de também do trabalho e da sensibilidade feminina para evoluir e melhorar sua situação social atual”.

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