Armadas e perigosas

25 09 2008

Elas se destacam num meio geralmente dominado por homens e provam que a guerra dos sexos está cada vez mais disputada e em condições de igualdade. Ocupando cargos de extrema responsabilidade, essas mulheres mostram que não há diferença entre homens e mulheres quando se tem responsabilidade, competência e, principalmente, sangue frio já que nossas personagens estão sempre armadas.

Fazer uma sólida carreira derrubando todos os desafios que se apresentassem era o objetivo de Charis Negrão Tonhozi quando, para alegria da sua família, optou por Direito à Medicina na época de prestar o vestibular. Sua mãe, que achava que o dia-a-dia de uma médica era muito desgastante, nem imaginava que a filha faria a opção pela Polícia Civil do Paraná e se tornaria a primeira mulher a assumir a difícil e perigosa tarefa de comandar a Corregedoria Geral, a “Polícia da Polícia” dentro da instituição.

charis

Destemida na juventude, como ela mesma se descreve, e com uma trajetória profissional de 23 anos de trabalho, a delegada Charis já havia comandado a Escola Superior de Polícia Civil antes de assumir a Corregedoria. “A Charis foi a primeira delegada a assumir a direção da escola, que geriu com maestria, treinando mais de sete mil policiais civis desde 2003”, lembrou o secretário de Segurança Pública Luiz Fernando Delazari.

Exceção à regra num meio em que os homens são maioria, Charis considera que a questão de gêneros e as enormes diferenças entre homem e mulher já está superada hoje em dia. As instituições públicas estão avançando cada vez mais e o fato de ser indicada a um cargo tão importante é pressuposto de competência.

“Não interessa se você é homem ou mulher. A mulher assumindo um cargo como o da corregedoria é uma evolução. O fato de poder assumir em nível de direção é muito gratificador e o fato de ser mulher dá um significado ainda maior à minha função, abrindo portas para outras colegas. É a quebra de paradigma”, acredita ela.
Charis relembra que no início da carreira, quando fazia parte da primeira turma da polícia, o seu objetivo, bem como de suas colegas, era assumir a Delegacia da Mulher. “Fomos exercendo as funções não só na delegacia da mulher, mas como em outras delegacias. Hoje, já tenho colegas aqui que também assumiram posição de destaque na Corregedoria como, por exemplo, na posição de Chefe da Coordenadoria de Informática, sub-divisão de Ponta Grossa e na Secretaria Executiva do departamento, só pra citar alguns”.

A delegada afirma nunca ter recebido nenhuma ameaçada de forma direta, “mas é realmente um cargo que desperta, infelizmente, um destaque de forma negativa. Certamente, entre todas as posições, a que mais se destaca é a da Polícia da Polícia”.

Casada com um também delegado de Polícia, na vida pessoal, vivenciam as mesmas dificuldades no dia-a-dia. “Eu tenho uma situação tranqüila, meu filho já está com 19 anos. Nunca planejei a minha carreira. Não tracei estratégias, o cargo de corregedora era almejado, mas não planejado. Sempre levei uma vida ilibada, com princípios éticos e morais”, conta Charis que, com voz calma e firme, passa a segurança de quem conhece profundamente seu ofício e não deixa a feminilidade de lado.

Apesar de o cargo lhe render altas responsabilidades, ela vê de forma positiva até mesmo os momentos difíceis de sua carreira. “Tem de se assumir a sua posição. Eu só tenho que pensar nas coisas positivas”. As dificuldades que Charis se refere estão na inexperiência profissional de início de carreira. “Éramos em 12 na primeira turma de mulheres delegadas em 1986. Quando se está trabalhando com homens, eles estão sempre te colocando à prova. Algumas colegas nos colocavam em uma redoma e outros te colocam na linha frente”.

Não perca as contas

Charis Negrão Tonhozi tem outros cargos de destaque em seu currículo. Além de ser a primeira mulher a comandar a Corregedoria da Polícia Civil, Charis foi, também, a primeira mulher a assumir a direção da Escola Superior de Polícia Civil do Paraná; a primeira assessora civil da secretaria da Segurança Pública; a primeira mulher a tomar assento no Conselho da Polícia Civil do Estado; a primeira Delegada de Polícia divisional no Paraná; a primeira Delegada de Polícia a atuar na cidade de Cascavel/PR, implantando a Delegacia da Mulher local.

A primeira tenente-coronel do sul do Brasil

ritaRita Aparecida de Oliveira fala firme e também conhece com propriedade os desafios de uma profissão cujas regras foram criadas pelo mundo masculino. Ela é a primeira tenente-coronel de uma Polícia Militar do sul do país,” Eu, como primeira tenente-coronel, tenho uma responsabilidade enorme. Na condição de mulher é preciso sempre estar superando expectativas”. A tenente Aparecida participou da primeira turma de mulheres em 1977. A primeira turma que realmente fez academia de polícia de igual pra igual com os homens. “Fomos um exemplo de queda de paradigma em todo Brasil”. Depois do Paraná, outros Estados conseguiram formar suas corporações e seguir o mesmo exemplo como Mato Grosso, Maranhão e Pernambuco.

A tenente Aparecida quer chegar ao topo e acaba de conquistar mais uma vitória. Como foi promovida em janeiro de 2005, em março desse ano ela completou 33 anos de serviço, tempo que a impossibilitaria de concorrer ao cargo de coronel. Mas Aparecida impetrou um mandado de segurança argüindo sobre a inconstitucionalidade da lei. A Lei Estadual 2005 alterou a promoção de oficiais e graças a um dispositivo legal e por força judicial, agora ela poderá concorrer ao tão esperado cargo de coronel. “Sempre lutei muito e tudo que obtive foi por merecimento e assim consegui abrir espaço para as mais jovens”. Atualmente, ela uma das mais antigas da corporação nesse cargo e se sente feliz por apesar da grande responsabilidade que tem em conduzir a instituição.

Com muita fé, Aparecida agradece a Deus por toda a garra que sempre teve. “Em momentos de dificuldades, sempre consegui achar uma bolha e respirar para continuar a luta”. Quanto ao sonho de chegar a se tornar coronel, a tenente Aparecida tem uma visão até mesmo espiritual. “Eu só quero o que é justo, de direito. Se estiver escrito nas estrelas e for para ser, eu serei”. Assumir uma carreira com perfis masculinos não é diferente de outra profissão. “É totalmente possível conciliar a vida profissional e a pessoal. Enquanto ser humano, não podemos nos esquecer desse equilíbrio. As coisas devem funcionar bem para a pessoa. Você deve sentir a mesma paz e felicidade saindo do trabalho para casa como saindo de casa e indo pro trabalho. Se isso não acontece, alguma coisa está errada”.

O número de oficiais mulheres trabalhando no quadro da corporação em setores executivos e administrativos também aumentou no período do governo Requião, inclusive na questão de dar mais oportunidades para soldados exercerem essas funções. “Antes, somente sargentos ou sub-tenentes assumiam essas responsabilidades administrativas”, afirma Aparecida.

Daquela primeira turma, duas mulheres também se destacaram: Elizabete margarida Meneck e Zilda Valentin de Souza que chegaram ao posto de major.

Os números

No Paraná, quase 20% do total de delegados de Polícia são mulheres, segundo Cháris. Na polícia militar as conquistas também caminham a passos rápidos. “Hoje, conquistamos o direito de competir por até 50% para vagas destinadas para polícia militar no concurso militar, alunos e oficiais do Guatupê”, conta a tenente-coronel Rita Aparecida de Oliveira. Em 2005, o efetivo de pessoal feminino dobrou na corporação. Antes da proposta da Lei Estadual 14.808, eram 500 mulheres. Hoje são duas mil mulheres. Antes, somente 6% das vagas eram direcionadas para o chamado “sexo frágil”. “Parece simples aos olhos de quem vê de fora mas, em 28 anos, chegamos a 500 mulheres. Em três anos, depois da publicação da lei, chegamos a 1.000 mulheres, ou seja, somente nesse curto período dobramos este número”, conta Aparecida.

A tenente também chama a atenção para as mulheres que também conquistaram espaço no corpo de bombeiros. “Estas oficiais também conseguiram chegar lá”. Segundo dados da Assessoria de Imprensa da Polícia Militar do Paraná, 1.067 policiais militares são mulheres sendo que 37 são alunas oficiais, 137 estão no curso de formação de soldados do Guatupê, três são aspirantes formadas e 42 são oficiais.

Entrando para a história

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O uniforme do tamanho certo ainda não chegou. O coturno ainda é um pouco maior do que deveria ser. Formada em pedagogia e aprovada no último concurso público de pedagogas em Foz do Iguaçu, Regiane Maria Biassu volta do portão pra dentro de casa sem perceber que se esqueceu de passar o rímel ou o perfume. Formada pela primeira turma feminina de guarda municipal de Foz do Iguaçu, em 1998, ela é a primeira agente de segurança em uma das maiores empresas do Brasil, a Itaipu Binacional.

Na companhia, os agentes de segurança são divididos em grupos de trabalho. Regiane trabalha com aproximadamente 26 homens na sua equipe. Regiane demonstra, talvez, uma das maioridades qualidades de um ser-humano: a gratidão. Lembra-se de todos que ajudaram e contribuíram para a chegada de uma colega em meio aos seus 150 colegas (homens) de Itaipu. E sua maior gratidão é com Walter, o técnico responsável por seu grupo. “Por ser a primeira mulher, eu devo te caído como uma bomba na mão de meu gerente de grupo, seu Walter. A missão dele foi impor todo o respeito que meus colegas têm atualmente por mim. Cuidar com piadinhas ou com conversinhas sem graça, o que é perfeitamente normal em um ambiente masculino. Merece um mérito muito grande por eu estar aqui porque, afinal de contas, eu fui uma experiência que deu certo, tão certo que as próximas colegas estão chegando”, comemora ela.

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Para ser aprovada na usina, Regiane passou no processo de seleção competindo com vários homens, praticamente gabaritando a prova de exame físico. Entre abdominais, corridas, natação e exercícios em barra, Regiane deixou muito homem para trás, assim como suas colegas que agora estão chegando na companhia. Regiane certamente abriu espaço e parece que tem incentivado as mulheres a chegarem onde ela conseguir chegar. No último teste de seleção para agente de segurança de Itaipu, dos 600 candidatos que prestaram o concurso para admissão, os dois primeiros lugares ficaram com mulheres. Elas devem assumir o posto em agosto, segundo Francelino Neumann de Lima, responsável pelos grupos de segurança em Itaipu. Vale ressaltar que essas mulheres passam por provas teóricas, físicas e por testes admissionais de igual para igual com os homens que também prestaram os exames.

Reconhecimento real

Regiane Maria Biassu, primeira agente de segurança de Itaipu, relembra uma palestra dada aos funcionários da companhia. Uma das palestrantes pergunta às poucas mulheres presentes na sala – na verdade duas ou três – como elas se sentiam trabalhando em meio a tantos homens. Uma senhora se levanta e anuncia:

– Eu não posso falar pelas outras e, por favor, me corrijam se eu estiver mentindo, mas eu sou tratada como uma princesa.

Esse acontecimento ilustra o tratamento que todos têm em relação às poucas mulheres dentro da Usina. Apesar de trabalhar em um posto destinado para homens, Regiane relembra os primeiros dias de trabalho na companhia. “Nos primeiros dias fui direcionada para o posto de segurança da barreira de controle dos funcionários. Como muitos trabalham há muito tempo na usina, obviamente ver uma mulher logo na entrada foi novidade. Buzinavam, acenavam, recebi muitos parabéns” Regiane Maria Biassu, primeira agente de segurança de Itaipu, relembra uma palestra dada aos funcionários da companhia.





“O ser humano é muito complicado”

25 09 2008

Foi nos Estados Unidos, em 1790, que o termo primeira-dama (first lady) começou a ser usado, graças às aparições de Martha ao lado do marido e presidente George Washington em compromissos políticos e eventos públicos. Mas o termo pegou mesmo quando a mídia americana se apossou da expressão e começou a se referir à mulher de Rutherford B. Haynes (1877-1881) também por “first lady”. Lucy Haynes chamava a atenção por participar ativamente nos trabalhos sociais, dedicando-se a visitar áreas carentes, asilos e hospitais quase em tempo integral. Já no Brasil, a expressão foi usada pela primeira vez com Mariana da Fonseca, então com 62 anos, esposa do marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente brasileiro.

O Paraná teve, na década de 1980, uma das mais jovens e belas primeiras-damas do país, quando Álvaro Dias foi eleito governador do Estado. Débora Dias tinha, então, 24 anos. Formada em Direito, Debora se considera uma representante da última geração de mulheres nas quais a profissão não era colocada em primeiro lugar como hoje em dia. “Apesar de termos que ter requisitos para casar e cuidar da família dávamos valor em ter-se uma faculdade, uma formação. Acho que tínhamos outra mentalidade”, diz ela.

Mesmo considerando ter assumido a posição e as responsabilidades de primeira-dama muito jovem, Débora avalia que a vida na política lhe ensinou algumas lições. A primeira delas foi nunca generalizar. “A generalização só prejudica aqueles que são bons, aqueles que por ventura são diferentes”. A segunda delas foi acreditar, como uma pessoa otimista, que nada é cem por cento ruim e nada é cem por cento bom. “Sempre vai ter uma coisinha ruim pra ter ensinar como uma lição. É preciso ter os pés no chão”, afirma ela. Débora se refere ao conhecimento que uma primeira-dama deve ter sobre as entidades do terceiro setor. “É preciso conhecer e querer saber sobre as pessoas envolvidas e a quem os recursos estão sendo destinados”.

Débora Dias avalia que ser primeira-dama foi uma oportunidade única em sua vida. “Uma época da vida em que se poderia aliar a força física da juventude e uma ingenuidade típica da época com os idealismos a flor da pele e uma ousadia que só somos capazes de ter na juventude”.

Mesmo com a vida tumultuada de primeira-dama, ela estava no último ano de Direito quando Álvaro concorreu ao governo do Estado. Nascida em 1963, Débora recorda-se da força do movimento estudantil daquela época, “uma geração ávida” e do divisor de águas que foi o ano de 1964.

A ex-primeira dama lembra, ainda, ter ido à praça pública vaiar o último presidente do regime militar, o general João Batista Figueiredo. “Pela pouca idade que eu tinha, pensar na carência do país não era uma ocupação da minha cabeça. Por isso, ser primeira-dama me deu grande oportunidade de pensar mais nos outros do que em mim mesma. Tínhamos aquela coisa de ser contra. Não podíamos, até então, expor nossas opiniões e quando se abriu a possibilidade, então o fazíamos. Não gosto de termo conto de fadas, mas vivia todo esse idealismo próprio da época”.

Nada de glamour

“De repente você é uma pessoa, tinha aqueles que nem sabiam quem você era e da noite para o dia, ao descobrir quem você é, tentam boicotar ações, fazer contestações. O ser humano é muito complicado”, desabafa Débora. Ela tinha consciência de que seria primeira-dama apenas por um período e que depois sua vida voltaria à rotina normal. Por isso, sempre tentou preservar sua vida privada. “A vida pública pode ter mudado, mas a minha vida quanto ao social e ao lazer que pratico, não. É preciso acertar o passo, fazendo a diferença no momento exato onde se quer fazer a diferença”.

Devota de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Débora avalia que o caminho para se chegar a Deus tem muitas estradas. “E o que uma primeira-dama faz para proteger seus filhos de ameaças de seqüestro?”, questiona ela ao mesmo tempo em que responde: “Coloca-se a vida na mão de Deus. A sensação de proteção religiosa durante alguns momentos difíceis como primeira-dama foram reconfortantes para se ter força para seguir em frente”.

Débora considera, na posição de esposa de um político e, principalmente, na situação de primeira-dama, impossível se chegar à alienação do que acontece em seu estado, cidade, ou bairro. Manter um diálogo aberto com o marido durante sua gestão foi essencial para ela. “É natural do ser humano sempre tender a se colocar em primeiro lugar. Na posição de primeira-dama, o bem do Estado vinha até mesmo antes da família. Acordava no meio da madrugada para tentar bolar maneiras e projetos para aquelas famílias que, eu sabia, passavam por necessidades”.

A ex-primeira-dama chama atenção sobre o egoísmo dos políticos em não seguirem projetos de gestões passadas. “Vários projetos que realizamos infelizmente não tiveram continuidade por egoísmo político, por achar que cada um que assume o governo deve criar novas metas e novas iniciativas. Isso tudo atrasa a situação da população que depende de também do trabalho e da sensibilidade feminina para evoluir e melhorar sua situação social atual”.